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Resultado do ENEM. Há o que comemorar?

Elza Peixoto

Temos, então, o resultado do ENEM... O fatídico sistema de avaliação que não diz uma linha sobre como estão escrevendo ou raciocinando nossos estudantes, nossos filhos que estão sendo formados pelo sistema de ensino brasileiro. O fatídico esquema que classifica as escolas brasileiras denunciando aquilo que todos nós já sabíamos: estão obtendo melhores colocações aqueles que estão matriculados nas escolas privadas, aqueles cujos pais podem arcar com mensalidades escolares acima de R$ 500,00. O fatídico esquema que reforça a opção pela escola privada; que reforça a diferença no direito de acesso ao conhecimento que a humanidade acumulou; que reforça a tese liberal da ineficiência do serviço público; que enlouquece os pais que não conseguem arcar com os custos da escola privada.

Há o que comemorar? A UEL comemora as notas do Colégio de aplicação, que na rede Estadual Local atinge o primeiro lugar... Os pais cujos filhos estão nas escolas privadas comemoram os resultados que obtêm como mérito por optar e poder pagar pela escola privada... Os pais, cujos filhos conseguiram as vagas nas escolas estaduais melhor avaliadas, comemoram as colocações conquistadas...

Entretanto, o que efetivamente dizem os resultados? O que é possível depreender das médias sem uma explicitação dos conteúdos nos quais as escolas se saíram melhor e pior? Este é o dado fundamental que é ocultado nos números, e que devia ser explorado pelo sistema de avaliação. O dado que explicita em que situação estão escolas públicas e privadas na equação conteúdo que os jovens devem dominar x conteúdo que eles efetivamente dominam. Este dado, a sociedade continua sem conhecer.

Trabalhemos com os dados, procurando interpretá-los no contexto das informações de que dispomos a partir dos resultados. Foram avaliadas, na região urbana de Londrina, 59 escolas da rede pública e privada de Ensino Médio Regular, Rede de Educação de Jovens e Adultos, e do Ensino Médio Profissionalizante. Destas 59 escolas, apenas 12 obtiveram nota superior à média 6,00, sendo apenas duas da rede estadual de ensino.

Concentre-mo-nos na menina dos olhos de nossa mentalidade pequeno burguesa: os colégios privados. Dos 10 colégios da rede privada que atingiram média acima de 6,00, nenhum atingiu a média 8,00 no quesito Redação e prova objetiva, e apenas 3 atingem a média 7,0. Em uma avaliação subjetiva, desprovida de elementos mais detalhados – tomando apenas os dados disponíveis na planilha que publiciza as médias – podemos concluir que os pais que estão custeando o caríssimo ensino privado estão obtendo um ensino inferior a 80% da qualidade desejada. Ou seja, a mercadoria pela qual pagam um valor contratado de 100%, esta sendo devolvida, na melhor das hipóteses, na forma de 80% de aproveitamento. Estes pais estão sendo lesados em 20% daquilo que pagam pelo ensino privado neste país... E, vejam só, os nomes das escolas privadas não estão indo para a SUNAB, o SPC, ou o SERASA!

Mesmo desconhecendo a situação real do ensino – expressa na avaliação minuciosa do “que” nossos estudantes efetivamente sabem de matemática, português, geografia, história, física, química, e porque sabem apenas x do que deveriam saber – partindo apenas da avaliação das aspiradíssimas médias, podemos perguntar: há o que comemorar?

Voltemo-nos, então, para a Rede Pública Estadual do Estado da Região Sul que está na extremidade superior do desenvolvimento econômico na Região, e provavelmente, um dos 05 estados mais desenvolvidos do país. Quais os resultados que a Escola Pública do Estado do Paraná, a Escola que está sob o mando e desmando da família Requião, obtêm? Tomando os dados de Londrina, apenas 22 escolas ultrapassam a média 5,0 na Redação e Prova Objetiva, e apenas 2 ultrapassam a média 6,0. Pelos dados apresentados, e considerando que a média das Escolas Estaduais é 6,0, temos o grave indicativo de que 52 escolas não passariam de ano letivo em 2007!!! Nenhuma escola seria aprovada se a média fosse 7,0 e 13 escolas não seriam aprovadas se a média fosse 5,0!!! Quando a média escolar da Rede Estadual de Ensino de um Estado na ponta dos índices de desenvolvimento no Brasil é inferior a 7,0, ou seja, 30% abaixo do rendimento esperado, há o que comemorar?

Ainda assim, o ex-diretor do Colégio de Aplicação e a atual Reitoria comemoram o primeiro lugar local e o nono lugar Estadual, obtendo uma média de 66,74 em Redação e Prova Objetiva, ou seja, 33,26 pontos abaixo da nota máxima, e 6,74 pontos acima da média estipulada para aprovação dos estudantes da Escola Pública Estadual!!! Não tendo atingindo os 100% que cada pai deste país espera para a educação de seus filhos, a UEL e seus dirigentes comemoram!!! Docentes do ensino superior público, onde se espera estar o conhecimento de ponta; pesquisadores e responsáveis pelas políticas públicas para a educação neste país, comemoram que as médias das notas de seus estudantes estejam, vejam só, 33,26 abaixo dos 100% que deveriam apresentar... Aceitando as regras e a forma da atual avaliação, qualquer programa de qualidade total demitiria os gerentes e colocaria sangue novo no pedaço!!!

Dois alertas significativos devem ser depreendidos pelos pais e educadores:
(1) na lógica do capital, esta na qual temos vivido e à qual nos entregamos orgiasticamente, promete-se que o preço alto inclua 100% de resultados. Mas é nesta mesma lógica que descobrimos que todas as mercadorias que vendem dentro ou fora da lógica “público” ou “privado”, possuem qualidade muito inferior ao que é prometido.
(2) para além das notas, e das condições objetivas a partir das quais foram obtidas, as médias escondem os conteúdos solicitados e avaliados. Não podemos inferir nada a partir dos resultados apresentados sobre a qualidade efetiva do ensino que nossos filhos estão recebendo na rede pública ou privada. Nada sabemos acerca do que é considerado conhecimento esperado nos níveis de ensino avaliados, nem o quanto os estudantes estão distantes do conhecimento necessário para compreender a realidade na qual vivemos, tarefa fundamental da escola.

Mas há um dado mais grave: há, efetivamente, diferença entre o conhecimento que os estudantes da escola pública estão tendo o direito de acessar e o conhecimento que os estudantes da escola privada estão acessando. Tomando a maior média entre as escolas privadas em Londrina (73,12) e a nota que representa 50% de sucesso na avaliação (a nota 50 portanto), a diferença não é tão grande assim (23,12), mas é uma diferença significativa. Uma diferença que pesa em concursos públicos que, em última instância, definem o acesso às vagas nas Universidades e em empregos estáveis...

Diante deste quadro, não tendo o que comemorar, podemos insistentemente perguntar: por que esta diferença? Qual a justificativa concreta para que a escola pública - que conta com professores concursados e estabilidade, ou seja, conta com a elite que consegue obter as primeiras colocações – obtenha notas inferiores aos colégios privados (com prováveis professores que foram reprovados em concursos públicos)? O que os resultados, para além das médias, efetivamente estão indicando? Que o Estado do Paraná não está investindo o que deve na educação? Que os professores da rede pública estão insatisfeitos com os baixos salários e que não possuem condições adequadas de trabalho? Que os professores não estão ministrando o mesmo conteúdo que as escolas privadas? Que os livros didáticos que nossos filhos estão usando na escola pública são inferiores aos das escolas privadas? Que, portanto, nossos filhos não estão tendo o direito de acesso ao conhecimento que os fará “cidadãos” de mesmo quilate que os que cursam as escolas privadas neste país?

Vale destacar, finalmente, o que a política de cotas pretende atingir... Os dados do ENEM demonstram que a educação básica que temos não permite acesso ao ensino superior. Qual a política que o Estado conduzido hegemonicamente pela coligação PT/PMDB implementa? Ora, obviamente, na lógica política eleitoreira, na lógica liberal hegemônica (disfarçada em social democracia), não pode ser mais que Estado Mínimo: não investimos mais recursos na educação, isto dá coceira na direita liberal e conservadora... Fazemos política eleitoreira e populista: dividimos as vagas disponibilizadas pelo ensino superior público entre os que recebem ensino acima da média 7,0 e os que recebem ensino abaixo de 6,0. Sob a ótica da equidade (igualdade de direito de acesso) é preciso admitir que é uma política bem justa não é mesmo?! Que mais podemos esperar de um Estado burguês, dirigido por burgueses almejando atender aos interesses da burguesia, senão uma política que nivela por baixo para obter resultados eleitorais satisfatórios?

Definitivamente, não há nada a comemorar nos resultados do ENEM...l

 

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